Ao chegar em Natal , morava perto de cinemas ( pela ordem ): o Rio Grande, o Rex e o Nordeste ( que parece ainda ter uma sobrevida ). Corria o final dos anos 70, cheguei a ver passeata nas ruas divulgando filmes...e seriados matutinos, tipo “Flash Gordon no Planeta Mongo”. Ainda havia uma tal de “Parada de sucessos” que tocava na espera de filmes no Rex. Era o máximo...a platéia ululava em seguida com o Canal 100 e seus lances futebolísticos na tela grande. Na saída, passava invariavelmente numa banca de revistas na esquina oposta do Rio Grande ( que ainda existe na esquina subseqüente , mas agora vende cachaça, petiscos, etc.) para comprar gibis de super-heróis...
Foi um tempo sem pressa em que, nas paradas, as músicas ficavam até um ano na primeira colocação e as letras gravadas em nossas memórias. Hoje, ouço com muita freqüência que “o tempo não passa, voa”. Num átimo, foi-se o final de ano; em seguida, o Carnaval e a Páscoa; passa julho e já estamos vivendo um novo final de ano. Na escola, dizíamos que o primeiro semestre era devagar, mas o segundo, se bobeasse, iria a jato. Ultimamente, se descuidarmos, passa também o primeiro, sem perceber como...
Atualmente, muito se fala em “qualificar” o tempo, definindo prioridades profissionais e pessoais. No segundo caso, é preciso cuidar para não ficarmos reféns da espera pelo outro, pois facilmente nos acomodamos às pequenas rotinas, que não temos vontade de mudar. O que mudou? O ritmo como enfrentamos a vida. Temos muitas oportunidades que suprem as necessidades de ocupação do tempo, mesmo que atrofie um lado fundamental do ser humano: a convivência, mais difícil, pois exige atenção especial por não termos um controle remoto do outro, que pode surpreender, positiva ou negativamente.
Hoje, não se pode fazer uma “parada de sucessos” pela rapidez com que as músicas são produzidas, consumidas e descartadas, mas podemos repensar a forma como gastamos nosso tempo. Para os saudosistas, infelizmente, não volta o convívio das matinés barulhentas onde a perseguição aos bandidos era acompanhada de batidas com os pés no assoalho, obrigando a parar a fita e restabelecer “a ordem”.
Para além dos recursos de informática que nos cercam, temos necessidade do convívio humano. Não tenho receitas, mas um colega de trabalho ao invés de ser atendido por uma máquina, no banco, entra na fila e pára diante de alguém que possa olhar nos olhos e dizer: “Olá, tudo bem?” O importante é ser criativo e qualificar o “hoje” para que o tempo não passe em vão, mas tenha sentido e sabor muito especial.
[Quarta-feira, Abril 23, 2008]
Em 2004, escrevi isto:
"Encanta-se com todas as mulheres. Independente dos caracteres físicos, cronológicos ou étnicos. Disso decorre a comum interrogativa feminina do tipo: "E quem não é maravilhosa para você?" . Não é que seja um caso típico sintomático de ordem patológica ( o popular tarado ou maníaco sexual ). Trata-se apenas de um extremo positivismo , de procurar o belo em qualquer contexto, em qualquer quadro - mesmo descolorido, fora dos padrões aceitáveis ou na absorção féerica de luz do negrume.
Óbvio está que tal deslumbre, muitas vezes pode ser rapidamente visto. Pois há casos de escancaramento fulgurante do dito. Em outros há necessidade de um exame mais detalhado, cuidadoso, que premia , muitas vezes, com inesperado contraste , mesmo que nos infinitésimos recônditos da estrutura...
E é um exercício prazeroso isolar os detalhes, rebater nos diedros, repetir varreduras..e deparar-se com pequeninos mas intensos brilhos advindos de um súbito sorriso de dentes perfeitos, ou um trejeito no andar, delicadeza nos gestos, sonoridade agradável do riso, um levantar de sobrancelhas, voz naturalmente meoldiosa, olhar magneto, simetria peito-bunda-coxa, o pezinho de fazer inveja à obra de Adjani, o nariz atrevido, cabelos em harmonia com o rosto.
E toda essa meticulosa e constante observação a todas as mulheres visa o primordial: Ser a catálise para enxergar além do espectro luminoso e de seus enlevos efêmeros. Buscar a consonância com suas qualidades da alma, inteirar-se e encantar-se incansavelmente com esse complexo universo de tantas dimensões e tão díspar do padronizado masculino. "
Mas...creio...que esqueceria tudo isso diante dela....(hehehe):
[Segunda-feira, Abril 21, 2008]