Eu recomendo irem..;)

[Quarta-feira, Maio 31, 2006]
Aqui estou eu neste terreno baldio perto de casa, com menos de 1.200 calorias diárias, treze dentes na boca e sem o Primeiro grau completo. Ainda consigo me divertir rolando um pneu velho de lá pra cá e, se o mosquito da dengue não me pegar, semana que vem vou continuar subindo naquela árvore ali.
Gozado, ontem, lá de cima, do último galho, vi que a auto-estrada vai passar bem aqui atrás do terreno e tudo vai mudar ao redor. Estão construindo um posto de gasolina onde dizem que vai ter uma loja que venderá chocolates, biscoitos salgadinhos e aquelas revistas da tevê. A parabólica já está lá no telhado. Tá vendo?
Bem aqui do lado do terreno já começou a subir um pequeno shopping que terá 10 cinemas e uma loja do Mc Donald's. Todo o segundo andar será destinado às lojas especializadas em informática, e aíeu vou poder comprar meu computador em 24 suaves prestaçôes. E o mais legal é que o telefone está chegando quase de graça aqui na favela, e aí vou poder entrar na Internet. De-mo-rou!
Tenho 14 anos incompletos e, às vezes, quando chego com a galera pra jogar bola no terreno, tem um parceiro desovado pelo movimento. O cara pode ter vacilado ou tombou na disputa com outra facção. Minha mãe diz que a Igreja é que está me salvando, mas a cada dia fica mais difícil não entrar. Tenho um outro parceiro da minha idade que ganha 10 vezes mais que os pais, tem duas automáticas cromadas, mina pra cacete e um tênis da nike no pé.
Há uma semana venho distribuindo folhetos na campanha de reeleição do Governador. Pode pintar um trampo de contínuo na Vigilância Sanitária. Este novo shopping, por exemplo, não tem estação de tratamento e vai jogar toda merda no rio que passa aqui atrás. Mas dizem que os países ricos se reuniram no Japão um tempo desses e resolveram dar computadores e nos colocar na Internet para diminuir a grande distância entre eles e a gente. Qual é malandro? Querem perdoar até a nossa dívida externa?! Esse papo está cheirando meio 171. Aqui na favela, se você fica devendo e não paga, o movimento lhe passa o cerol.
Meu sonho é ser astronauta ou repórter da TV Globo, porque sou ruim de bola e não sei cantar pagode, mas, se eles nos derem Internet, talvez eu faça um desses cursos à distância. Mas outro dia um gringo de uma ONG não-governamental pintou aqui e disse que eles estão mesmo é enrolando a gente para controlar tudo - do estoque da tendinha do Zé da esquina à aposentadoria da minha velha -, pois a Microsoft fez um acordo com a Dataprev para saber quantos de nós estão no trampo oficial, quantos ganham salário mínimo, quantos nascem, quantos se aposentam, de que caímos doentes e quantos de nós partimos dessa para melhor.
Talvez este seja o caminho enviesado da Terceira Via para que cheguemos ao desenvolvimento. Afinal, eles são ricos, sabem o que é bom para a humanidade e devem ter um pouco de compaixão por nós, os excluídos. Nada mais justo que também possamos participar dessa nova economia. Se não for assim, qualquer hora um idiota igual a mim vai estar dentro de vala negra, com um celular ligado à Internet, um buraco no estômago e urubu de soslaio espreitando o último bit de suspiro. Se tiver força, meto o dedo nos teclados, conecto-me com a NASA e mando eles enfiarem o cabo do mouse no rabo do foguete que vai pra Marte.
Se sobreviver ao holocausto, viro predador subterrâneo emergindo à noite para suprir minhas deficiências calóricas com a carne saborosa que estará circulando pelos shoppings. Nós seremos a resposta mutável da espécie que não sucumbiu ao desenvolvimento tecnológico. E nas ranhuras do sacrossanto canto do meu saco estará o código criptografado de acesso aos portais do Universo, com ou sem Internet e com as diferenças entre eles e nós aumentando na mesma proporção em que as galáxias se afastam umas das outras, como previu Einstein na sua constante cosmológica.
[Quinta-feira, Maio 25, 2006]
Como a dimensão social cristaliza-se, hoje em dia , velozmente, a espiral evolutiva logo se achata e prende nas suas malhas os esforços individuais de ultrapassagem dos níveis culturais já encrostados. O que tira-se desta observação� Que o dinamismo da auto-realização do indivíduo e do organismo social, depende de uma interdependência inelutável. O processo é passível de obstruções indesejáveis.
A mensagem existencial capaz de provocar ressonâncias criativas tende a se institucionalizar. E no bojo desta, que pretende ser sua guardiã e propagadora, a mensagem se esvazia, perdendo-se nos estereótipos ritualísticos, para ser substituída, finalmente, pela representação de papéis e funções contidos na mensagem mas que não a alcançam totalmente. A sociedade é zelosa de suas instituições pois são elas, afinal, que lhe dão estabilidade. Por isso, ela demora a reconhecer o esvaziamento da citada mensagem, conservando seus ritos originais, como se ainda fossem verdadeiramente válidos...
( Lembrei disso quando li "O Código da Vinci" :-) )
[Segunda-feira, Maio 22, 2006]
Entende-se como nepotismo o uso da máquina pública em proveito próprio ou para praticar atos que levem ao favoritismo de parentes ou amigos que direta ou indiretamente usufruam vantagens e outras benesses à custa dos cofres públicos que muitos representantes do povo, permitem-se conceder no exercício do poder.
Geralmente os representantes do povo se atribuem o direito de privatizar as coisas públicas, principalmente em causa própria, talvez, desconheçam que os cargos de assessoria, são públicos e não deles. Esses cargos não foram eleitos com o representante, eles foram disponibilizados pela sociedade para facilitar o seu trabalho.
O quadro de assessoria deveria ser, preenchido através do processo mais correto e democrático que é a seleção por concurso público, com tempo determinado de vigência que inclusive não discriminaria, nem constrangeria parentes.
Quando contrata um parente e recebe críticas, o representante do povo justifica que a escolha foi por competência ou por confiança. Na verdade, o que houve, foi a prática do "protecionismo" e do "filhotismo". Como comprovar nesse caso a competência do indicado? Competiu com quem? Quem julgou? Como saber se entre os cidadãos eleitores não teriam pessoas muito mais competentes e mais confiáveis?
Descabido, também, é dizer que não há problemas em contar com o serviço de parentes, em virtude da ausência de impedimento legal para contratá-los. Claro está que o representante está falando na sua ótica de ver mal as coisas públicas. Nesse caso, a moral e a ética são apenas detalhes menores, no seu entendimento.
Portanto, torna-se cada vez maior o contingente de representantes do povo, querendo resolver o problema do desemprego familiar e dos apadrinhados. Por conseguinte, a renda familiar ficará mais gorda e a salvo de alguma mesada ao filhote assessor ou de algum parente desgarrado, que será incluindo no bolo "nepotista".
A prática do nepotismo pode ser presumida também, pelo abuso do poder concedido de decidir em nome do povo. Nenhum cidadão é eleito para deliberar em causa própria, mas para agir dentro dos limites da lei, da ética, da moralidade pública e da vontade popular. Caso não haja leis para coibir atos como o nepotismo, faça-se a lei. A sociedade não suporta mais o nepotismo, que se tornou uma ferida aberta na democracia brasileira. Solidariedade aos que proporão leis contra o nepotismo.
O representante percebe proventos da sociedade, para representá-la, alguns exercem outras atividades remuneradas, não lhes é exigido dedicação exclusiva. A remuneração dos representantes do povo está no vértice da pirâmide. Presume-se então que o nepotismo praticado não é por falta de dinheiro, mas por ganância e usurpação.
Milhões de brasileiros sobrevivem com um minguado salário mínimo, que é estabelecido, aliás, pelos seus representantes. Em situação inferior a essa, existem também outros tantos brasileiros que não têm renda e emprego, agrupados na "subclasse dos excluídos" dos bens materiais e simbólicos, vivendo à margem de tudo e de todos.
Essa situação desumana tem-se notícias dela desde o advento da república, os representantes e o nepotismo também já existiam naquela época. Já é tempo de parar!
[Quinta-feira, Maio 11, 2006]